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Porque é importante o conhecer a Filosofia do Judô
Ao divulgarmos em um campeonato O CAMINHO DO GUERREIRO, Sumio e eu nos deparamos com
uma pergunta que formulada de forma explícita ou velada, é o questionamento do que
verdadeiramente poderia acrescentar a um atleta, a leitura de algo tão subjetivo como
filosofia. Aparentemente tão longe do seu quotidiano-- de um mundo tão objetivo,
permeado pela aridez dos treinos suados e tão concretos quanto as dores físicas dos
machucados e das dificuldades financeiras que resultam em enormes frustrações-- a
filosofia é realmente uma ajuda preciosa.
O judô é antes de tudo uma filosofia que tem uma técnica. Essa técnica bem definida
foi arquitetada tendo como base essa filosofia ou a maneira como os seus criadores
entendiam o mundo com tudo que o cerca. Portanto, podemos dizer que a técnica é a forma
visível desse entendimento.
Exemplo: Os "atemis" foram criados e fundamentados em pontos vitais do
organismo humano. Pontos fatais, se devidamente atacados. Pois esse foi um minucioso
empreendimento: fazer de um corpo um sofisticado instrumento de alto poder letal.
Mas, isto não se faz sem um conhecimento muito grande e profundo do ser humano, das
suas ações, dos seus impulsos e das suas mínimas reações, pois é com esse mesmo
corpo que expressamos sentimentos e emoções. Para se trabalhar essas habilidades motoras
no sentido de levá-lo ao máximo das suas possibilidades, seria preciso levá-las em
conta também acrescentando o fato de que a nossa memória é muscular e reedita em nossos
mínimos gestos, as nossas lembranças. Por conseguinte, o controle dessas emoções seria
necessário para que a coordenação fluísse livre desses empecilhos emocionais como o
medo, a raiva, o ódio etc.... que no nosso dia a dia evocamos.
Perceberam que uma mente serena e o coração equilibrado auxiliam com certeza a
absoluta precisão dos movimentos. Entendiam o ser humano -- como nos mostra o Budismo--,
como um agregado de corpos com variabilidade de graus de sutileza em que se entrecruzam
energias do céu e da terra. Empreenderam um sério estudo dessas energias do universo e
sua atuação no ser humano. O estudo do Ki (energia).
Percebiam o homem não como um ser material que tem um espírito, mas um ser espiritual
que tem um corpo, e um treino perfeito para o controle dessas emoções, não seria
possível sem a contribuição do espírito que o anima.
Miyamoto Mussashi explicita isso muito bem em seu livro O SEGREDO DOS CINCO ANÉIS.
São tantas as nuances dessa filosofia que é preciso conhecê-la bem. Ter mais
intimidade com a cultura que lhe deu vida é fundamental para que esse instrumental possa
ser usado e melhor aproveitado para atingir a excelência da prática quando usada de
forma adequada e inteligente.
Os mestres mais antigos, os professores mais velhos descendentes de japoneses
precisavam estudar filosofia? Não, pois a vida deles já era um exercício diário dessa
filosofia; o que diziam e tudo o que faziam e como faziam era uma expressão genuína
dela.
Ocidentais assimilaram esse judô? Não, com certeza a maioria, não. Os europeus de
maneira geral o entenderam à luz de sua própria filosofia, com o seu modo peculiar de
entendimento, portanto o judô deles é um tanto diferente. Pior, ou melhor? Em alguns
aspectos bem eficientes, especialmente no que se refere ao uso da força, da resistência,
alvo predileto das atuais pesquisas. Dá certo, mas o bom resultado se nos dermos ao
trabalho de observar as pesquisas, ainda se deve muito mais à pessoa que o executa do que
a todo esse arsenal desenvolvido.
Isto porque o judô é um esporte de contato, isto é, atuando em uma relação e
relação humana é a coisa mais imprevisível que existe. A nossa Ciência ainda é
rudimentar, sem parâmetros e sem categorias de análise no que tange ao mais humano e as
suas relações. Ou seja, há tantas variáveis interferindo e confundindo as conclusões
que não é possível até o momento, afirmações muito abalizadas.
Costumo dizer que o instrumental do judô é grosso modo como um automóvel da marca
BMW. Sendo um ótimo carro sempre funciona bem com qualquer motorista. Contudo, apenas um
piloto bem treinado e que conheça bem as suas características ímpares e as inúmeras
possibilidades das suas sofisticadas especificidades o revelará de fato. Somente esse
piloto com o seu talento e com profundo conhecimento do seu ofício, em uma performance
inigualável revela esta maravilha da tecnologia moderna justificando a sua fama. E
novamente nos referimos à questão da relação, no caso carro/motorista, para
concluirmos que nada da vida tem um valor por si só, mas um valor relativo e quem define
isso é o ser humano com a sua imaginação, com a sua motivação e com a sua intenção.
É o que fornece o significado de tudo.
Assim é com o judô, daí a importância de conhecer a sua essência, que é a sua
filosofia. Com certeza você conhecerá um pouco mais a seu respeito, afinal tudo não é
relacional? Tudo e absolutamente tudo na natureza é um fenômeno relativo, nada tem valor
isolado, tudo interagindo com tudo. Os ocidentais descobriram isso com a física quântica
há poucas décadas atrás, e os orientais-- há milênios.
Além dessas coisas, ao estudar a filosofia do judô, você terá no mínimo a
oportunidade de saber o porquê dessa paixão de praticante, e provavelmente se apreciará
mais por gostar tanto de algo tão bonito sem saber que tinham tanto em comum. É uma
descoberta dupla: do judô e de si próprio o que ajuda muito a lidar melhor consigo e com
ele.
É igual quando encontramos um novo amigo ou um novo amor e descobrimos qualidades que
admiramos e que não gostamos, mas que com toda a certeza qualidades e defeitos que tem
muito a ver conosco também. Com isso nós dois crescemos e nos transformamos em novas
pessoas, pois todo e qualquer encontro na vida é uma revelação - boa ou ruim--, se
tivermos consciência
disso. Entretanto uma pessoa pode passar anos a fio com outra sem que se possa dizer que
ali houve algo que se possa chamar de relação, tal a inconsciência delas. Neste caso
não há crescimento e nem transformação, há uma destruição lenta de cada um.
Então é para isto que serve a filosofia. Para que se tenha maior clareza, para um
pensar mais objetivo. Para que as subjetividades desse pensar (nossas emoções,
sentimentos e intenções) ao serem devidamente consideradas e reveladas não se tornem os
nossos empecilhos ocultos e maiores inimigos.
Ela nos ajuda a descobrir e conhecer melhor o mundo que nos cerca para nele atuar de
forma eficaz na busca das coisas que tanto almejamos. Com o judô não é diferente e
conhecer a sua filosofia é conhecer o seu espírito e tocá-lo na sua essência, é
seguir seu Caminho - o Budô. Com toda a certeza o judô que você fizer terá mais beleza
porque com mais sentimento; será mais gratificante porque mais alegre, com mais vida e
com mais brilho.