FPJ - FEDERAÇÃO PAULISTA DE JUDÔ
JUDÔ BRASILEIRO MOSTRA A TUA CARA!

Todos nós brasileiros somos carne da carne de negros e índios supliciados e de forma igual, somos a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna, e a crueldade mais atroz se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos, e agente insensível e brutal que também somos.

Darcy Ribeiro

É com satisfação que volto a esse espaço em que aprendo muito e faço amigos, ainda que seja um contato intermediado por um frio teclado de computador, posso dizer que nem por isso é sem emoção. Quem escreve sempre o faz para alguém, e apesar de ser um ofício solitário o sinto como uma janela que se abre, rompendo a solidão de um mundo anônimo, principalmente quando antevejo o calor do contato na esperança da resposta. Ademais, o que eu mais gosto no judô, seja no tatami, nas competições, por e-mail, discordando ou concordando é sempre o compartilhar--coisa que me dá um imenso prazer.

Para iniciar o que penso ser o inicio de uma longa conversa, falaremos das nossas origens, buscando nelas a razão maior dessa nossa paixão pelo judô. Entretanto, a todos peço além de muita paciência e desculpas pelo longo texto, mas digo que é preciso lê-lo na íntegra, pois ele será daqui pra frente, o nosso norte e o chão pelo qual faremos uma nova caminhada pelo mundo do judô:

  • Nascemos em um país de povo e de cultura riquíssima originada de três matrizes étnicas: do índio com suas inúmeras etnias, do negro da costa ocidental africana e do branco invasor, o português que foi o agente catalisador desse amálgama que chamamos de Brasil.

Então, é a partir dessa mistura incrível que surge um fantástico país, com uma população mestiça que se diferencia entre si-- apenas pelo modo de ser--, em alguns segmentos dessa população:

  • O Brasil Caboclo, da Amazônia, resultante de índios “genéricos” e sem cultura própria e de mestiços gestados pelos brancos em mulheres índias Tupis.
  • O Brasil Crioulo, do litoral, dos engenhos de açúcar, dos escravos índios e negros, das casas grandes e das senzalas.
  • O Brasil Sertanejo, do norte e nordeste, com sua religiosidade singela, messiânico, enfático na defesa da sua honra pessoal, no brio e na fidelidade às suas chefias.
  • O Brasil Gaúcho ou Sulino que surgiu de uma população de mestiços espanhóis e lusitanos com mulheres índias Guarani--matriz guarani que seria base da população sulina.
  • O Brasil Caipira, sudeste e do interior do país, do centro de mineração, das lavouras de café, das fazendas dos colonos misturados com muitos “gringos” que chegavam da Europa e ajudaram na expansão do latifúndio.

Esses gringos germânicos, italianos, poloneses, libaneses e japoneses, se misturaram com a nossa já enorme população mestiça resultante de uns poucos brancos europeus multiplicados de forma espantosa, em uma multidão de mulheres índias e negras. Esses imigrantes fazem o Brasil da terceira configuração histórica, pois quando da entrada desses novos habitantes, o Brasil já os recebe com uma cultura pronta, absorvendo-os e abrasileirando-os, apenas gerando diferenciação nas áreas em que se aglutinaram.

O que quero dizer é que essas três matrizes que deram origem as bases da cultura brasileira: a índia, o negro e o lusitano plasmaram o nosso modo de ser brasileiro, o definindo como um povo muito diferente dos nossos irmãos latinos que até hoje vivem o drama da identidade dual de índios e espanhóis ou dos nossos ricos irmãos Australianos, Canadenses e Norte Americanos. Para eles, a fortuna chegou mais cedo, visto que construíram as suas novas nações com “transplante” de velhos modelos de um velho mundo. Nações, onde na verdade pouca coisa é nova e as gentes, os modos, línguas, preconceitos e caras repete o antigo: é regrado, insosso e igual.

Somos diferentes, porque somos uma nova raça, com uma nova cara, totalmente feita em um longo, doloroso, trabalhoso e imenso projeto: o de reinventar o ser humano. E, apesar dessa nossa origem de matrizes tão diferentes, temos uma língua única e a nossa cultura tão rica e variada não nos separou em multi-etnias, mas resultou por nos transformar no povo mais integrado da Terra. É pouco?

Mas, ao mesmo tempo, ao lado dessa maravilha cultural e genética, nascida do sacrifício de milhões de nativos e de negros importados em um genocídio implacável, também emerge uma sociedade injusta e criada especialmente para servir e enriquecer o dominador de fora--dominador atualmente designado pelo nome charmoso de mercado mundial. Enfim, o Brasil foi intencionalmente criado para ser desigual. Para ser despudoradamente usado pelas elites de dentro e de fora do nosso país para manutenção de seus egoístas projetos de enriquecimento.

Sendo assim, essa sociedade injusta é mantida por um servilismo atávico que se expressa no nosso sentimento de inferioridade eterno. Ele se alimenta do abismo social que se estabelece entre as classes dominantes que é uma minoria, e as classes subordinadas e exploradas que é a imensa maioria do nosso povo.

Ele se perpetua na crença nos desígnios dos céus a nos separar “justamente” em pobres e ricos e nos leva a um modo de organização social que tanto dificulta as nossas conquistas pessoais e nacionais. Mas dento de cada um de nós, vive um nobre guerreiro negro e índio que aspira pelo resgate e o reconhecimento do seu valor e é esse reconhecimento que nos ajudará também a sairmos da condição de eternos subdesenvolvidos.

Posto tudo isso, vocês devem estar se perguntando e aí o judô com isso? É que neste Brasil de tantos contrastes desembarcam os japoneses, trazendo na bagagem a experiência da extrema penúria de um campesinato engolfado pela revolução industrial. Aqui eles continuaram as suas vidas sacrificadas, abrindo clareira na mata selvagem, enfrentando a hostilidade dos índios que se defendiam de mais invasões; aqui construíram as suas casas e estradas para terem o direito ao menos de serem os donos do seu próprio chão.

E com eles nos chega o judô, primeiramente como uma atração de luta, mais tarde como uma possibilidade de conservação da sua cultura de origem. Mas diferente de outros países, essa cultura aqui não foi apenas preservada, ela foi cultivada e transformada, dando maravilhosos frutos e revivendo tão naturalmente. E por que?

Porque o que verdadeiramente houve foi o encontro de espíritos guerreiros, seres que amavam sobremaneira a arte de lutar, não como rasteira e mesquinha forma de mero domínio, mas por determinação ancestral da sua própria linhagem afirmando a sua dignidade.

Foi o início de um silencioso caminhar dos que entendem a vida como matéria e magia, dos que sabem respeitar os desígnios da natureza e não se envergonham de acreditar nos espíritos das florestas, dos rios, do sol e da lua que influenciam as colheitas; foi o reconhecimento de seres que amam os rituais, que se emocionam com coisas tão simples e principalmente dos que sabem admirar e respeitar os seus adversários, pois se entendem como seres iguais e que por contingências da vida se vêem posições diferentes.

Antes de tudo, foi um Brasil mestiço a se reconhecer nesse projeto de vida que se chama judô, uma esperança a mais de resgate da sua dignidade perdida.

Esse judô de suave caminho, criado pelos velhos guerreiros samurais, possui a mesma origem sofrida e o mesmo sentimento de um povo da terra espezinhado e esmagado por enormes diferenças sociais. O próprio Jigoro Kano, depois de algum tempo verificou que tinha resgatado para o seu povo, um extraordinário caminho educativo de progresso, de construção de um mundo melhor e menos infame. Para nós, ele nos ajuda a preservar o nosso sentido de liberdade e o nosso direito de sonhar--direito que de forma sutil, aos poucos nos é solapado...

Sendo assim, você e eu, os de pele branca ou não, de olhos azuis ou não, temos no coração os mesmos sentires dessa brasilidade tida como desavergonhada, mas feliz. Mas essa nossa brasilidade, gestada nos matos e nos porões e abafada pela capitulação silenciosa da nossa natureza intrépida de guerreiros, seja Tupi, Guarani ou de qualquer etnia* da África Subsaariana, exige, a posse integral dessa herança dos nossos valorosos antepassados-- ela será imprescindível para as nossas próximas conquistas.

Nessa linha, não podemos somente dizer que temos um judô japonês que se abrasileirou, mas que o nosso, é um judô alimentado pelo espírito da terra de um distante arquipélago e que se desenvolve forte no nosso chão tropical de dimensão continental que o aceita inteiro, pois estamos abertos para o futuro--como ele.

Com tudo isso, faço votos que esse nosso judô, nunca seja um judô insosso e sem sabor, como tantas coisas que de vez em quando aceitamos, para nos parecer com os nossos colonizadores. Isso é coisa de colonizado adestrado, é bom cuidar e selecionar o que queremos absorver.

Possuímos a criatividade e a flexibilidade dos nossos índios, porque deles herdamos uma sabedoria adaptativa milenar que nos permite apesar de todas as mais diferentes variantes existenciais manter a nossa unidade essencial de uma raça mestiça, tropical e orgulhosa de si mesma, mais sofrida e por isso mesmo mais humana mais generosa e mais alegre. Isso tudo faz o nosso judô de pele branca, vermelha, negra e amarela, um judô de pele dourada. Nós brasileiros sabemos disso inconscientemente, mas precisamos saber de fato e reforçar essa verdade dia a dia, para não nos sentirmos pequenos frente a quem quer que seja, e diminuídos entreguemos o nosso “ouro” tão facilmente, tão docilmente, tão submissos.

Então esse será o eixo central de todos os nossos textos, o nosso foco de ação, a nossa lente e o ponto de partida de um movimento para dentro de cada um de nós, no sentido de encontrar a nossa verdadeira identidade.
Assim, através do judô caboclo, crioulo, sertanejo, gaúcho ou caipira, vamos, com toda a força de coração que possuem, ajudar o judô do Brasil a mostrar a sua verdadeira cara.
Um grande abraço a todos, Vera Lucia Sugai

Obs. Esse texto teve como base o livro “Povo do Brasil” do cientista e antropólogo Darcy Ribeiro que dedicou a sua vida a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo.

E-mail: ocaminhodoguerreiro@hotmail.com