Todos nós brasileiros somos carne da carne de negros e índios
supliciados e de forma igual, somos a mão possessa que os supliciou.
A doçura mais terna, e a crueldade mais atroz se conjugaram para fazer
de nós a gente sentida e sofrida que somos, e agente insensível
e brutal que também somos.
Darcy Ribeiro
É com satisfação que volto a esse espaço em que aprendo
muito e faço amigos, ainda que seja um contato intermediado por um frio
teclado de computador, posso dizer que nem por isso é sem emoção.
Quem escreve sempre o faz para alguém, e apesar de ser um ofício
solitário o sinto como uma janela que se abre, rompendo a solidão
de um mundo anônimo, principalmente quando antevejo o calor do contato
na esperança da resposta. Ademais, o que eu mais gosto no judô,
seja no tatami, nas competições, por e-mail, discordando ou concordando é sempre
o compartilhar--coisa que me dá um imenso prazer.
Para iniciar o que penso
ser o inicio de uma longa conversa, falaremos das nossas origens, buscando
nelas a razão maior dessa nossa paixão
pelo judô. Entretanto, a todos peço além de muita paciência
e desculpas pelo longo texto, mas digo que é preciso lê-lo na íntegra,
pois ele será daqui pra frente, o nosso norte e o chão pelo qual
faremos uma nova caminhada pelo mundo do judô:
Nascemos em um país
de povo e de cultura riquíssima originada
de três matrizes étnicas: do índio com suas inúmeras
etnias, do negro da costa ocidental africana e do branco invasor, o português
que foi o agente catalisador desse amálgama que chamamos de Brasil.
Então, é a partir dessa mistura incrível que surge um
fantástico país, com uma população mestiça
que se diferencia entre si-- apenas pelo modo de ser--, em alguns segmentos
dessa população:
O Brasil Caboclo, da Amazônia, resultante
de índios “genéricos” e
sem cultura própria e de mestiços gestados pelos brancos em mulheres índias
Tupis.
O Brasil Crioulo, do litoral, dos engenhos de açúcar, dos
escravos índios
e negros, das casas grandes e das senzalas.
O Brasil Sertanejo, do norte e
nordeste, com sua religiosidade singela, messiânico,
enfático na defesa da sua honra pessoal, no brio e na fidelidade às
suas chefias.
O Brasil Gaúcho ou Sulino que surgiu de uma população
de mestiços espanhóis e lusitanos com mulheres índias
Guarani--matriz guarani que seria base da população sulina.
O
Brasil Caipira, sudeste e do interior do país, do centro de mineração,
das lavouras de café, das fazendas dos colonos misturados com muitos “gringos” que
chegavam da Europa e ajudaram na expansão do latifúndio.
Esses
gringos germânicos, italianos, poloneses, libaneses e japoneses,
se misturaram com a nossa já enorme população mestiça
resultante de uns poucos brancos europeus multiplicados de forma espantosa,
em uma multidão de mulheres índias e negras. Esses imigrantes
fazem o Brasil da terceira configuração histórica, pois
quando da entrada desses novos habitantes, o Brasil já os recebe com
uma cultura pronta, absorvendo-os e abrasileirando-os, apenas gerando diferenciação
nas áreas em que se aglutinaram.
O que quero dizer é que essas
três matrizes que deram origem as
bases da cultura brasileira: a índia, o negro e o lusitano plasmaram
o nosso modo de ser brasileiro, o definindo como um povo muito diferente dos
nossos irmãos latinos que até hoje vivem o drama da identidade
dual de índios e espanhóis ou dos nossos ricos irmãos
Australianos, Canadenses e Norte Americanos. Para eles, a fortuna chegou mais
cedo, visto que construíram as suas novas nações com “transplante” de
velhos modelos de um velho mundo. Nações, onde na verdade pouca
coisa é nova e as gentes, os modos, línguas, preconceitos e caras
repete o antigo: é regrado, insosso e igual.
Somos diferentes, porque
somos uma nova raça, com uma nova cara, totalmente
feita em um longo, doloroso, trabalhoso e imenso projeto: o de reinventar o
ser humano. E, apesar dessa nossa origem de matrizes tão diferentes,
temos uma língua única e a nossa cultura tão rica e variada
não nos separou em multi-etnias, mas resultou por nos transformar no
povo mais integrado da Terra. É pouco?
Mas, ao mesmo tempo, ao lado
dessa maravilha cultural e genética, nascida
do sacrifício de milhões de nativos e de negros importados em
um genocídio implacável, também emerge uma sociedade injusta
e criada especialmente para servir e enriquecer o dominador de fora--dominador
atualmente designado pelo nome charmoso de mercado mundial. Enfim, o Brasil
foi intencionalmente criado para ser desigual. Para ser despudoradamente usado
pelas elites de dentro e de fora do nosso país para manutenção
de seus egoístas projetos de enriquecimento.
Sendo assim, essa sociedade
injusta é mantida por um servilismo atávico
que se expressa no nosso sentimento de inferioridade eterno. Ele se alimenta
do abismo social que se estabelece entre as classes dominantes que é uma
minoria, e as classes subordinadas e exploradas que é a imensa maioria
do nosso povo.
Ele se perpetua na crença nos desígnios dos céus
a nos separar “justamente” em pobres e ricos e nos leva a um modo
de organização social que tanto dificulta as nossas conquistas
pessoais e nacionais. Mas dento de cada um de nós, vive um nobre guerreiro
negro e índio que aspira pelo resgate e o reconhecimento do seu valor
e é esse
reconhecimento que nos ajudará também a sairmos da condição
de eternos subdesenvolvidos.
Posto tudo isso, vocês devem estar se perguntando
e aí o judô com
isso? É que neste Brasil de tantos contrastes desembarcam os japoneses,
trazendo na bagagem a experiência da extrema penúria de um campesinato
engolfado pela revolução industrial. Aqui eles continuaram as
suas vidas sacrificadas, abrindo clareira na mata selvagem, enfrentando a hostilidade
dos índios que se defendiam de mais invasões; aqui construíram
as suas casas e estradas para terem o direito ao menos de serem os donos do
seu próprio chão.
E com eles nos chega o judô, primeiramente
como uma atração
de luta, mais tarde como uma possibilidade de conservação da
sua cultura de origem. Mas diferente de outros países, essa cultura
aqui não foi apenas preservada, ela foi cultivada e transformada, dando
maravilhosos frutos e revivendo tão naturalmente. E por que?
Porque o
que verdadeiramente houve foi o encontro de espíritos guerreiros,
seres que amavam sobremaneira a arte de lutar, não como rasteira e mesquinha
forma de mero domínio, mas por determinação ancestral
da sua própria linhagem afirmando a sua dignidade.
Foi o início
de um silencioso caminhar dos que entendem a vida como matéria e magia,
dos que sabem respeitar os desígnios da natureza
e não se envergonham de acreditar nos espíritos das florestas,
dos rios, do sol e da lua que influenciam as colheitas; foi o reconhecimento
de seres que amam os rituais, que se emocionam com coisas tão simples
e principalmente dos que sabem admirar e respeitar os seus adversários,
pois se entendem como seres iguais e que por contingências da vida se
vêem posições diferentes.
Antes de tudo, foi um Brasil mestiço
a se reconhecer nesse projeto de vida que se chama judô, uma esperança
a mais de resgate da sua dignidade perdida.
Esse judô de suave caminho, criado pelos velhos guerreiros
samurais, possui a mesma origem sofrida e o mesmo sentimento de um povo da
terra espezinhado
e esmagado por enormes diferenças sociais. O próprio Jigoro Kano,
depois de algum tempo verificou que tinha resgatado para o seu povo, um extraordinário
caminho educativo de progresso, de construção de um mundo melhor
e menos infame. Para nós, ele nos ajuda a preservar o nosso sentido
de liberdade e o nosso direito de sonhar--direito que de forma sutil, aos poucos
nos é solapado...
Sendo assim, você e eu, os de pele branca ou
não, de olhos azuis
ou não, temos no coração os mesmos sentires dessa brasilidade
tida como desavergonhada, mas feliz. Mas essa nossa brasilidade, gestada nos
matos e nos porões e abafada pela capitulação silenciosa
da nossa natureza intrépida de guerreiros, seja Tupi, Guarani ou de
qualquer etnia* da África Subsaariana, exige, a posse integral dessa
herança dos nossos valorosos antepassados-- ela será imprescindível
para as nossas próximas conquistas.
Nessa linha, não podemos
somente dizer que temos um judô japonês
que se abrasileirou, mas que o nosso, é um judô alimentado pelo
espírito da terra de um distante arquipélago e que se desenvolve
forte no nosso chão tropical de dimensão continental que o aceita
inteiro, pois estamos abertos para o futuro--como ele.
Com tudo isso, faço
votos que esse nosso judô, nunca seja um judô insosso
e sem sabor, como tantas coisas que de vez em quando aceitamos, para nos parecer
com os nossos colonizadores. Isso é coisa de colonizado adestrado, é bom
cuidar e selecionar o que queremos absorver.
Possuímos a criatividade
e a flexibilidade dos nossos índios,
porque deles herdamos uma sabedoria adaptativa milenar que nos permite apesar
de todas as mais diferentes variantes existenciais manter a nossa unidade essencial
de uma raça mestiça, tropical e orgulhosa de si mesma, mais sofrida
e por isso mesmo mais humana mais generosa e mais alegre. Isso tudo faz o nosso
judô de pele branca, vermelha, negra e amarela, um judô de pele
dourada. Nós brasileiros sabemos disso inconscientemente, mas precisamos
saber de fato e reforçar essa verdade dia a dia, para não nos
sentirmos pequenos frente a quem quer que seja, e diminuídos entreguemos
o nosso “ouro” tão facilmente, tão docilmente, tão
submissos.
Então esse será o eixo central de todos os nossos
textos, o nosso foco de ação, a nossa lente e o ponto de partida
de um movimento para dentro de cada um de nós, no sentido de encontrar
a nossa verdadeira identidade.
Assim, através do judô caboclo, crioulo, sertanejo, gaúcho
ou caipira, vamos, com toda a força de coração que possuem,
ajudar o judô do Brasil a mostrar a sua verdadeira cara.
Um grande abraço a todos, Vera Lucia Sugai
Obs. Esse texto teve como base o livro “Povo do Brasil” do cientista
e antropólogo Darcy Ribeiro que dedicou a sua vida a ajudar o Brasil
a encontrar-se a si mesmo.