FPJ - FEDERAÇÃO PAULISTA DE JUDÔ
ARTIGOS
Competição de Judô para Crianças

INTRODUÇÃO

A disputa por um troféu, um lugar de “status”, a busca do sucesso, são algumas das principais atividades geridas pela nossa sociedade. Só tem valor àquele que vence, quem está no topo da cadeia profissional e quem alcançou o primeiro lugar!

Considerando a realidade do judô, alcançamos um nível de projeção mundial que nos coloca entre os primeiros do mundo, com várias conquistas em olimpíadas e campeonatos mundiais. Porém ao mesmo tempo, especialmente no estado de São Paulo, nota-se a constante queixa de professores, treinadores e técnicos que a cada dia diminui a inscrição de novos alunos nas academias, escolas e clubes e conseqüentemente nas competições.

Alguns desses profissionais pontuam que as restrições impostas para as competições e limitações para competição nas menores faixas etárias têm contribuído para essa redução.

O propósito desse artigo é salientar estados científicos que reforçam as pesquisas mostrando que a competição precoce e a respectiva falta de controle em faixas etárias mirins, infantis e infanto-juvenis, ocasiona de forma irreversível mais danos que glórias e prejudica intensamente a continuidade em nosso esporte.

REVISÃO DE LITERATURA

Gomes (2002), enfatiza que é de fundamental importância a atuação do treinador nas faixas etárias jovens, atuando como pedagogo e considerando que nos grupos de preliminares de atletas (infantil e juvenil) deve-se atentar para a programação bem controlada e as competições devem conter elementos adaptados para as faixas etárias correspondentes. Gomes (2002) complementa que a eficácia do treinador não deve ser avaliada pelos resultados obtidos nas categorias infantis e juvenis e sim pela formação e desenvolvimento das habilidades motoras reunidas pelos atletas.

Muito freqüentemente os treinadores não consideram a faixa etária ótima para atingir bons resultados e conseqüentemente inadimissívelmente forçam a preparação de seus atletas, preocupando-se em leva-los ao alto resultado já em idades muito tenras, sem pensar em seu futuro como atleta e principalmente como adulto. Muitos resultados positivos obtidos nas idades infantis e juvenis não garantem ao adolescente o seu progresso posterior. O critério melhor a ser utilizado pelos treinadores deve ser a longo prazo com ênfase no respeito ao desenvolvimento do indivíduo.

Takagaki (2000), grande campeão de judô olímpico, mundial e do aberto do Japão, acentua que a idade ideal para se iniciar o treinamento de judô é por volta de 12 a 13 anos e que não se deve iniciar as competições antes de pelo menos dois anos de prática freqüente, contínua e progressiva. Ele diz que o judô é um esporte que deve servir ao ser humano por toda a vida. A prática sistemática, bem fundamentada e no progresso contínuo leva o estudante de judô a perceber que não importa o quanto ele saiba, sempre poderá aprender mais.

Esses dois relatos mostram que o propósito do esporte, em especial o judô, é o de formação, isto é, educativo e fortalecedor do desenvolvimento do indivíduo.

Miranda (2004), menciona que o judô é um instrumento eficaz para auxílio no desenvolvimento motor, mental e emocional durante a infância, desde que se utilize a didática lúdica, recreativa e se possa adaptar o judô para as capacidades de maturação das crianças, sejam em treinamento como em competições.

O desenvolvimento motor, descrito por Gallahue e Ozmun (2003) fundamenta a teoria que o mesmo é um processo variável no sentido específico a cada faixa etária e que tanto as estruturas físicas (exemplo: placas epifisárias dos ossos), como estrutura emocional e a mental devem ser respeitadas quando da efetivação de um treinamento ou de uma competição.

Sabe-se que a atividade física tem efeito geralmente positivo sobre o crescimento e desenvolvimento, exceto em casos de nível excessivo de utilização ou impactos traumatizantes. Como exemplo: cita-se que crianças em práticas exaustivas, no esporte direcionado às práticas competitivas, desenvolvem lesões nos tecidos ósseos que comprometem a formação adequada das placas epifisárias, calcificando-as precocemente, atingindo diretamente seu crescimento, além da perda da auto-estima, insegurança pessoal e reação mental de introversão.

Barbanti (2005) enfatiza que a prática de maneira regular, durante vários anos, com intensidade adequada ao nível de crescimento e desenvolvimento, produz ajustes no organismo dos jovens de acordo com as exigências do esporte. Mas um desenvolvimento harmônico do corpo e das capacidades motoras é essencial, a fim de criar uma premissa fisiológica para o treinamento especializado mais tarde. Alguns esportistas alcançam níveis elevados de rendimento em idades bastante jovens, mas esses casos são exceções. Milhares de esportistas foram formados durante vários anos para atingir nível mundial.

Muitas vezes, os treinadores desconhecem essa realidade, e, no desejo de alcançar prematuramente altos níveis de rendimento, exigem dos jovens atletas a realização de treinos duríssimos ou, pior ainda, com muita intensidade, o que excede o potencial de adaptação ou esgota as reservas de adaptação do organismo muito cedo. Nessas circunstâncias, provoca-se um estado de exaustão, quase sempre acompanhado de lesões e, infelizmente, de desistência do esporte, quando ainda não se atingiu a idade de maior rendimento do organismo.

Dessa forma estendendo-se para as competições, acredita-se que a melhor forma de executá-las para crianças e jovens é adaptá-las de maneira a considerar a preservação da sua integridade física, de não prejudicar seu desenvolvimento físico, motor e emocional e proporcionar limitações que permitam a sua participação saudável com o devido cuidado para que a mesma atinja os seus objetivos de forma gradual e de acordo com a maturação do jovem atleta.

Zatsiorsky (1999) confirma que durante competições o nível de “stress” emocional, físico e mental é sempre o maior alcançado pelo atleta e pressupõe uma alta dose de treinamento próximo aos limites dos esportistas; a pressão emocional é um fator extremo de desgaste e que interfere diretamente nos níveis de atuação hormonal e no sistema imunológico. Sabe-se que um esportista competidor deve executar em treinos o máximo possível o número de repetições de determinados movimentos a fim de se especializar.

Inokuma e Sato (1984) são enfáticos dizendo que o competidor de judô deve treinar exaustivamente seus golpes, repetindo-os de forma a buscar sempre seu melhor desempenho. Obviamente se transportarmos esses treinos para o competidor infantil estaremos contradizendo Weineck (1999), fisiologista alemão, doutor em treinamento que solicita atenção para a especialização precoce, pois a mesma para crianças e jovens impede o desenvolvimento motor e emocional a longo prazo, interferindo inclusive para o subaproveitamento das potencialidades do atleta posteriormente.

Maglischo (1999) descreve que muitas crianças e jovens deixam de praticar esportes devido às práticas competitivas extenuantes; a razão de abandono nos Estados Unidos na natação é de 6 entre 10 praticantes, em esportes coletivos de 5 entre 10, no atletismo de 8 entre 10, mesmo número verificado entre lutadores de artes marciais e na ginástica artística. As razões dessas desistências devem-se às pressões por resultados, perda de confiança, elevados níveis de exigência física e principalmente lesões precoces e desgaste motivacional.

É notório mundialmente, nos países de maior desenvolvimento esportivo e econômico que a maioria dos seus campeões olímpicos e mundiais não tiveram classificações prioritárias quando eram esportistas nas faixas etárias mais jovens.

Especificamente no judô nota-se o valor que desse esporte pode-se fomentar, com competições, nas quais o objetivo seja o congraçamento, a troca de experiências e que a cooperação é mais importante que a vitória. Deixemos a vitória como fim específico e as conquistas esportivas para os adultos; que a competição seja exercida por atletas preparados e maduros e que se dediquem totalmente para isso.

CONCLUSÃO

A competição é uma das maneiras pelas quais vários fundamentos educativos podem ser ensinados, tais como: respeito às regras, respeito ao adversário, convivência com ideais, pensamentos e atitudes diferentes. Entretanto as competições de judô para crianças devem seguir o protocolo máximo de responsabilidade de seus organizadores, isto é, devem atentar para o fato que a criança não é um adulto em miniatura, não basta apenas diminuir os tempos das lutas, deve-se preservar o desenvolvimento integral do jovem a fim de que ele seja estimulado a participar, a verificar que o mais importante não é apenas vencer, mas poder notar seu progresso enquanto judoca (postura, entrada de golpes, técnicas executadas, melhoria na realização da técnica, versatilidade de técnicas usadas, aceitação de que seu oponente é um contribuinte para seu progresso e que o divertimento e a conquista de objetivos podem e devem ser mutuamente alcançados). Que ele seja preparado para ser um cidadão e que pratique o judô sempre.

Os dirigentes devem proporcionar ambientes saudáveis para uma competição bem planejada com o mínimo desgaste de tempo e com regras adaptadas às faixas etárias específicas. Basta comprovar o sucesso dos festivais infantis de judô, iniciativa pioneira em São Paulo do sensei Dante Kanayama; que já na 19ª edição promove uma verdadeira integração do judô no meio infantil, disseminando a prática e participação de crianças, cada ano com mais judocas e com impecável organização, com cuidado na preservação da integridade física dos praticantes infantis e jovens.

Algumas técnicas no judô podem ser extremamente prejudiciais tanto para quem aplica como para quem a sofre quando executada por crianças ainda em formação, (exemplo: o seoi-nague ajoelhado diretamente provoca impactos externos pelo próprio peso do corpo sobre a articulação dos joelhos, causando grandes danos ósseos, inclusive na calcificação precoce das placas epifárias da tíbia e fíbula; o tomoe-nague pode ser executado de forma deficiente atingindo órgãos genitais; o yoko-sankaku pode causar lesões na articulação cervical; o sukui-nague (te-guruma) pode causar quedas diretas com concussões cerebrais, técnicas essas restritas nas competições infantis no estado de São Paulo, dentre outras.

Os treinadores devem, antes de tudo, serem educadores e necessitam estar atentos para não exercer pressões emocionais sobre seus jovens atletas e têm por obrigação explicarem aos pais que a prática esportiva é um meio de formação para que seus filhos(as) possam se desenvolver adequada e harmoniosamente na busca de suas qualidades interiores.

Assim, acredito que a redução do número de praticantes de judô nas classes juvenis, não se deve às restrições impostas para sua prática competitiva nas faixas etárias infantil e pré-juvenil e sim a outros fatores que devem ser melhor estudados, tais como: custo de participação, tipo de competição, horário de competições, tempo de duração, divulgação efetiva do esporte, número de competições, tipo de organização, forma de treinamento, estímulo ao treinamento com capacidade adequada para a motivação na sociedade atual, objetivos das competições em todos os níveis etários, forma de premiação e reconhecimento, etc.

Espero que esse estudo contribua aos professores de judô a fim de alcançarem a sua melhor utilização e conseqüentemente na maior captação de adeptos deste nosso formidável esporte.

Mario Luiz Miranda
2006


Este artigo reflete exclusivamente a análise científica pessoal efetuada pelo autor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Barbanti, V.J.  Formação de Esportistas. São Paulo. Manole, 2005
  • Gallahue, D.L; Ozmun, J.C. Compreendendo o desenvolvimento motor. Bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo. Phorte, 2003.
  • Gomes, A.C. Treinamento desportivo. Estruturação e periodização. Porto Alegre. Artmed, 2002.
  • Inokuma, I; Sato N. Best Judô. Tóquio. Kodansha International 1 ed., 1982.
  • Maglischo, E.W. Nadando ainda mais rápido. Arizona State University. São Paulo. Manole, 1999.
  • Miranda M.L. A iniciação no judô: relação com o desenvolvimento infantil – Trabalho acadêmico – Monografia – São Paulo – Universidade Paulista, 2004.
  • Takagaki, S; Sharp, H. The techniques of judo. Tóquio. Charles E. Tuttle Company, Inc., 1982.
  • Weineck, J. Treinamento ideal. São Paulo. Manole, 1999.
  • Zatsiorsky, W. Ciência e prática do treinamento de força. São Paulo. Phorte, 1999.

 

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