ARTIGOS
Sobre A Difícil Arte de Atrair Multidões e... Patrocínio
O atleta tal não pode viajar, não dispõe de recursos, o patrocinador não renovou
o contrato.O sacrifício danado para treinar, parcos recursos e finalmente a
tão sonhada vitória. A fama, o assédio popular e a esperança de que tudo melhore;
patrocínios garantidos e adeus dureza. Será? Nem sempre, mas o que deseja uma
empresa quando patrocina alguém?
Bem, imagino que afora motivos de ordem pessoal, o patrocinador procura uma
boa parceria com alguém que tenha a oferecer uma imagem atraente como a do herói
jovem, saudável, bonito e bem humorado, inteligente ou espirituoso; efetivamente
alguém capaz de criar fatos de uma referência positiva (não muito escandaloso),
ou seja, alguém de sucesso capaz de ostentar o mais permanente possível a sua
marca em uma vitrine.
Difícil não? Tornar-se um modelo tempo integral, treinando o melhor ângulo,
a roupa adequada ou sugestiva, exibindo sempre o melhor sorriso, ostentando
um sensual bronze na pele e fazendo declarações interessantes. Não é fácil para
ninguém muito menos para um atleta: como se não bastasse treinar pesado, agora
é preciso agir como se estivesse sendo filmado 24 horas!
Então para se ter sucesso é necessário ter a sua vida pessoal invadida e impedido
de viver do jeito que se gosta? É claro que é importantíssimo viver do jeito
que se gosta, porém se almejarmos algo mais do que 15 minutos de fama, é sensato
rever as escolhas pessoais que expressam nosso modo de ser para avaliar esse
"jeito" de forma clara e consciente, sempre levando em consideração
os objetivos que queremos alcançar. Assim desenvolvemos um modo próprio de viver
que marcará de forma especial tudo o que fizermos com um estilo inconfundível
e o patrocinador quer exatamente isto: alguém com personalidade marcante.
Posso afirmar que isto não é somente obrigação de pessoas famosas. Hoje em
dia, para se arrumar um bom emprego é preciso quase tudo isto também, o que
não é coisa pouca e acreditem: requer muito treino e habilidade desenvolvida.
Então vejamos:
Guga, o tenista, não é o que poderíamos de chamar de um homem bonito. Vocês
podem argumentar que o tênis é um esporte de ricos e o patrocínio é certo e
seguro por aquelas bandas. Acho que sim, mas tênis não é propriamente um esporte
que contagie multidões, mas o Guga sim, e por que?
Guga, com o seu estilo alternativo-competente, sempre faz notícia. É simpático,
afetuoso, beija mamãe, o irmão e a vovó. Guga é muito família e nós mulheres
adoramos o sentimento ambíguo de mãe/mulher que ele nos inspira. É muito espontâneo
nas suas declarações e atitudes.Nesse último jogo em que perdeu, declarou: "Perdi
porque o outro jogou melhor, não vou me justificar". Declaração bonita
e corajosa. Resultado: não gosto de Tênis, mas adoro o Guga, e me interesso
até pelos seus resultados - tudo pelo Guga.
Os patrocinadores sabem disso. O quanto um ídolo pode atrair público para o
seu produto, assim como pode dar brilho e destaque a um determinado esporte.
Entretanto não é muito fácil juntar duas coisas: bom atleta e carisma, mas sei
também que se houver interesse, do dia para a noite fabrica-se um novo ídolo,
não obstante, é preciso de alguém com um mínimo de características e potencialidade
para tal, do contrário o que se consegue é um certo período de fama e nada mais.
Tenho observado que a maioria dos atletas quando fazem alguma declaração, segue
o modelito consagrado pelos astros do futebol que, não fosse pelos milhões envolvidos
no destaque das suas imagens para ressaltar a preciosidade dos seus milionários
passes (dos clubes e dos pés) essas declarações não atrairiam um só leitor ou
ouvinte.
São conversas versadas sobre os milhões dos contratos, são mágoas e mais mágoas
de determinado pessoa ou clube, pela falta de patrocínio, pela incompreensão
geral com a sua última contusão, pela dificuldade de viajar para fora e se aperfeiçoar,
acrescidas a um montão de justificativas para os mais recentes fracassos mostrando-se
sempre as vítimas. Não é necessário ser sempre assim e convenhamos, é um desperdício
dos recursos de imaginação e de espontaneidade que com toda a certeza, qualquer
jovem dispõe.
Mas, para isso é preciso um trabalho em termos pessoais para que cada um tenha
uma consciência clara do que se é e das coisas em que acredita. Uma pessoa que
não mostra condições de assumir compromissos e demonstrar isso em dados precisos
como, por exemplo, no caso de atletas-- constância de resultados, prazo previsto
desses resultados--, não vai achar facilmente parceiros adequados. Não interessa
a ninguém e muito menos a uma empresa, o contato pessoal, profissional ou comercial
com alguém que não tenha consciência do que é, do que representa e do que é
capaz de fazer.
Mas para ter tal segurança é preciso atualizar-se sobre si mesmo, atento as
suas mudanças, ao seu comportamento em relação às pessoas e as coisas do mundo,
aos seus sonhos e aos seus desejos para não ir tropeçando em dificuldades que
no fundo são genuínas auto-sabotagens pelo medo do sucesso.
Isto pode ser feito estudando, lendo ou mesmo trocando idéias com pessoas,
as mais variadas, consultar profissionais competentes para melhorar os recursos
emocionais que em se tratando de atletas, na sua maioria são bem precários.
Com freqüência ouço e leio declarações ressentidas de atletas que se sentem
descartados tão precocemente, e em alguns casos até pode ser verdadeiro. Mas
será que nós não nos descartamos também quando deixamos de refletir honestamente
para descobrir o que precisamos melhorar ao invés de só reclamar? Evitamos essas
atitudes negativas que são frutos de um analfabetismo sobre si mesmo com um
antídoto: o autoconhecimento.
Hoje em dia, cada profissional precisa tratar-se como a um produto em um mercado
sempre em constante transformação, para melhorar a sua qualidade. Não dá mais
para separar o profissional do pessoal, visto que passamos muito mais tempo
no trabalho em que desempenhamos variados papéis: de pai, mãe, filho, etc. e
é preciso desempenhá-los bem. Saber viver em grupo, colaborar, dialogar, ser
flexível, ser curioso, administrar a vida pública e privada com um mínimo de
sabedoria, do contrário fica difícil liderar quem quer que seja, e espera-se
que um campeão seja um líder não? E por fim, admitir que não dá para ninguém
ser mais do "bloco do eu sozinho": do eu sou o bom, eu sou o máximo!
Concluindo, uma medalha é um passe para a categoria dos deuses do olimpo esportivo
com a condição de revalidá-lo com o trabalho árduo de construção pessoal e profissional.
O podium é somente o início da jornada. A consagração almejada exige uma trajetória
de intrincados e sinuosos caminhos. Sem perda de tempo é bom conhecê-los, mesmo
porque hoje em dia acontece tudo muito rapidamente.